terça-feira, 13 de março de 2012

SÃO FRANCISCO DE ASSIS, UM ÍCONE DA ESPIRITUALIDADE ECUMÊNICA E INTER-RELIGIOSO

SÃO FRANCISCO DE ASSIS,
UM ÍCONE DA ESPIRITUALIDADE ECUMÊNICA E INTER-RELIGIOSO

por Frei Fracisco Rogério, OFM

Considerar São Francisco de Assis, como
um ícone da Espiritualidade ecumênica e
inter-religiosa, é evidenciar sua relevância
para a Igreja e para o mundo no decorrer
dos séculos. Considerá-lo um ícone, só é
possível analogamente. Na Igreja oriental,
o ícone é uma manifestação do Sagrado
que permite ao crente entrar em contato
espiritual como o Mistério Divino, no qual
próprio ícone foi inspirado. Francisco
deixou-se configurar pelo Mistério Divino,
sua Espiritualidade é sinal do Mistério de
Deus revelado em todas as criaturas e da
relação reconciliada das criaturas entre si
e com o Criador.
A Espiritualidade que permeou o coração
do apaixonado poeta-cavalheiro do
Evangelho, foi modelada ao longo do seu
processo de maturidade humanoespiritual.
O caminho espiritual galgado
por Francisco que o levou a um encontro
dialogal, fraterno e reverencial para com
outro, se processa paulatinamente a partir
dos acontecimentos e profundas
experiências de sua vida. Ele começa um
processo de conversão, que terá como um
dos fatores relevantes o despojamento de
si para entregar-se radicalmente à graça
de Deus. Ele se deixará conduzir na
gratuidade intuitiva do seu coração, e
assim percebe os desígnios do amor e da
graça de Deus estão para além daquilo
que a razão consegue conceber ou
sistematizar. A seguir apontamos alguns
aspectos que foram importantes para o
caminho dialogal de Francisco:
A Experiência da guerra
Um dos primeiros acontecimentos foi ter
participado da guerra entre Perusia e Assis
na qual se encontrou prisioneiro e doente.
A guerra foi um momento decisivo na vida
de Francisco, na qual ele se despojou do
desejo de nobreza que ambicionava ao
sair vitorioso. A partir de então, ele
começou o seu caminho de expropriação,
que o levará sempre mais em direção de
abertura a Deus e as criaturas todas.
Encontro o leproso
Francisco fez a experiência de vencer-se a
si mesmo para ir ao encontro daqueles que
antes não conseguia se aproximar. Ele
mesmo confirma isso em seu Testamento:
“E enquanto me retirava deles, justamente
o que antes me parecia amargo se me
converteu em doçura da alma e do corpo”
(Test. 1). Esse encontro de Francisco com
o leproso é um passo importante de
abertura e conversão diante do outro,
numa atitude de diálogo e reverência
diante da dignidade que o outro possui em
sua essência.
A Experiência com o Crucificado na
igrejinha de São Damião
A) É num momento de crise e contestação,
que Francisco sente-se chamado para
restaurar a Igreja. Em vez de ser um
contestador, ou até mesmo mais um que
poderia ter rompido a comunhão com a
Igreja, ele apresenta-se com sua proposta
de vivência radical do Evangelho e de
comunhão. Sendo obediente a Igreja não
deixa de viver a radical idade para qual se
sentia chamado, mas no seu chamado foi
ao encontro desta, numa profunda atitude
de filho, que a ama e deseja que a Mãe
Igreja, seja um sinal do Amor de Deus para
todos.
B) Também dessa experiência em São
Damião, nasce na vida de Francisco uma
singular identificação com Cristo pobre e
crucificado. “Ele tinha a condição divina,
[...] Mas esvaziou-se a si mesmo, e
assumiu a condição de servo tomando a
semelhança humana. E, achado em figura
de homem, humilhou-se e foi obediente até
a morte e morte de cruz” (Fl 2, 6-8). Ele
deseja configurar sua vida à de Cristo
despojado de amor pelos homens e
mulheres. É vivendo inspirado nessa
atitude da Kenosis, que o Seráfico de Assis
se coloca diante de todos, isto é, faz-se
menor e desprezível. Como Cristo veio ao
encontro da humanidade para reconciliála,
Francisco torna-se sinal dessa
reconciliação.
O Encontro com o Evangelho
O encontro com o Evangelho é a
experiência que Francisco faz de
São Francisco de Assis, um ícone
da Espiritualidade Ecumênica e Inter-religiosa*
Estudos
0124 NOTÍCIAS Jan-Fev 2012
encontrar-se com a medula de sua
Espiritualidade, o Evangelho é o centro de
todo o itinerário espiritual de Francisco.
Tendo feito a experiência de encontro
com o Evangelho, Francisco assume uma
vida de despojamento, e vai ao encontro
do mundo e de todos totalmente livre de
qualquer coisa ou idéia que o impedisse
de aproximar-se do outro para anunciá-lo.
Cântico das Criaturas
Francisco foi galgando seu caminho de
abertura ao outro, até chegar ao seu
estágio de plena comunhão com toda a
criação. Ele se deixou conduzir pelo
Espírito do Senhor, que o tornou o irmão
universal, por viver atitude de amor a
todos, num reconhecimento dos sinais do
Amor Criador de Deus em cada criatura.
O Cântico do Irmão Sol, também
conhecido como Cântico das Criaturas, é
indubitavelmente o mais belo e
significativo poema espiritual que o
Pobrezinho Poeta de Assis compôs como
manifestação de seu amor de irmão
universal.
Espiritualidade do Dialogo Interreligioso
Foi com a fé Islâmica que Francisco fez
essa experiência de diálogo que se tornou
um marco importante para a vida Igreja,
embora a Igreja visse com dificuldade
essa possibilidade de dialogar, mas
permitiu Francisco assumir esse intento,
muito embora ele não tivesse preocupado
em pensar numa compreensão
sistematizada a respeito do diálogo.
Francisco não hesitou reconhecer com
respeito e reverência o que há de santo e
verdadeiro nas outras religiões. Nesse
sentido o Seráfico de Assis a seu tempo já
pode ser entendido como um precursor
do Diálogo Inter-religioso.
Espiritualidade do Dialogo ecumênico
O termo ecumênico foi derivado do termo
grego ï?êïõìÝíç (oikoumene) que
significa: Totalidade do mundo habitado.
Francisco pode ser considerado um ícone
da Espiritualidade, ecumênica, tanto no
tocante a unidade dos Cristãos, como
também no sentido mais amplo, isto é, na
sua relação de irmão universal,
correspondendo assim o termo
ecumênico que significa todo o mundo
habitado.
Francisco é, evidentemente, um ponto
referencial para Espiritualidade do Diálogo
para cristãos católicos e outros cristãos,
como também para as outras religiões.
Contudo, ele se apresenta com forte sinal
de apelo aos católicos e franciscanos, aos
católicos por ser ele católico, e aos
franciscanos, porque essa dimensão do
Diálogo ecumênico e inter-religioso é parte
vital do carisma. Portanto, essa é uma
herança que deve ser cuidada como parte
integrante da vocação de cada franciscano
e de cada franciscana.
Um eco para hoje
O Concílio Vaticano II nos Documentos
Nostra Aetate e Unitatis Redintegratio
convida e encoraja os cristãos, de modo
particular, os católicos e entre eles os
franciscanos e franciscanas a cultivarem a
Espiritualidade ecumênica e interreligiosa.
Essa dimensão dialogal é parte
integrante da missão da Igreja. Diante dos
desafios dos tempos hodiernos, é possível
se perceber os esforços que estão sendo
realizados, mas faz-se necessário
reconhecer que ainda é muito pequeno o
caminho feito em vista do Diálogo
ecumênico e inter-religioso. De modo
geral, os cristãos de maneira especial os
católicos, ainda precisam se lançar com
mais empenho para responder aos apelos
e exortações que a Igreja tem feito. Os
franciscanos, por sua vez, precisam
assumir com mais audácia essa dimensão
que é, por natureza, parte de sua vocação.
O que já tem sido feito nesse sentido
merece louvável reconhecimento, mas
como diz o santo seráfico: “pouco ou nada
fizemos, então é sempre momento de
recomeçar”.
Frei Francisco Rogerio, OFM
*Resumo da Monografia do
Curso de Teologia
NOTÍCI

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